Átimo

Carrego nos ombros o fardo do meu humanismo renascentista. É como uma fraqueza ou vício que opõe a tudo que doutrinei a vida inteira. Sou parte deste egoísmo. Sou a conversa não dialogada de olhares trocados e promessas tatuadas em gestos.
Não quero ter todas as pessoas do mundo, pois não pertenço a mim mesmo, e corro o risco de ser estelionatário de sentimentos alheios, afinal não sou responsável pelas carências do cativado. Almejo apenas brevemente estar no lugar Daquele que zela por mim.
Não faço parte da comunidade de idiotizados esperando um coletivo social, quando na verdade, as pessoas pensam em si e nos seus merecimentos. Imagine uma competição esportiva onde todos almejam ganhar seu prêmio. Se o importante fosse de fato somente participar, qual o motivo de troféus? Lugares e colocações? Por outro lado, onde está escrito que o adversário é seu inimigo? São apenas lados diferentes de uma mesma moeda. Ideia ilusória de coletivo. Não somos mosqueteiros.
E quando conseguimos nosso primeiro lugar, ainda temos a audácia de agradecer a Deus por ser melhor que o segundo lugar? É como dizer que Adão veio primeiro por ser mais importante ou melhor que Eva. Ser vencedor nada tem a ver com colocação.
Faz parte do meu protocolo jurídico pessoal eleger ágapes moldados no meu manual de instruções, e descobrir a cada dia que cientistas são sozinhos por se acharem autossuficientes, em meio a inércia quântica de sentimento advindos do mundo contemporâneo.
Os amores partem da intuição não explicada em fórmulas cientificas, por isso nunca teremos o tudo do outro, são imperfeições demais filtradas pela sanidade de querer ser abrigo do outro, ainda que o caminho ou a luta não leve ao primeiro lugar.
Judas descobriu que nem todas as moedas pagam o preço justo pelo segundo lugar, e no findar da vida descobriu que o preço dos sorrisos, abraços e a conversa compartilhada se abrigam num baú que ele não teve para guardar tais valores, a não ser agora dizendo: as pobres moedas.
Fico a pensar o que seria de nós se Deus não nos fosse misericordioso perante nossas mazelas da vida e dos relacionamentos. Porém, vale lembrar que independe da sua fé, é fato que existe um lugar reservados a aqueles que foram neutros. Eis a importância do eleger e do escolher, independente do sim ou do não, a questão aqui é nunca ser neutro, principalmente no amor.

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